Com que Roupa?

Com que Roupa?

Noel ri da própria desgraça na canção "Com que Roupa", gravado em 1930, na qual lamenta: "Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro, não consigo nem ter pra gastar". Segundo a dupla de biógrafos de Noel Rosa, à época da composição da música coexistiam dois tipos de samba na cidade. Um deles misturava "intelectuais e macumbeiros, funcionários públicos e boêmios, pequenos comerciantes bem-sucedidos e operários modestos, ex-escravos e músicos", como Sinhô e Pixinguinha. O outro, menos conhecido naquele momento, se espalhava pelos morros com menos e músicos treinados ou instrumentos, letras mais próximas do cotidiano da região, com acompanhamento mais improvisado, rudimentar, com tamborins, cuícas, surdos, pandeiros, cavaquinhos, palmas e batidas na mesa. Noel parece se aproximar mais da segunda vertente nesta canção com bandolim e violões, que foi um sucesso estrondoso de público. Ao longo dos anos, o sambista deu diversas versões sobre a origem da música, da qual dizia não gostar. Elas iam do retrato realista das dificuldades econômicas do povo à alegoria da situação política às voltas com a Revolução de 1930, golpe que levaria Getúlio Vargas ao poder. Os biógrafos também exaltam aspectos mais técnicos da canção, marcada por um "feliz casamento de música e verso". "Há também a originalidade do tema, as rimas pouco usuais na canção popular, a construtura técnica na qual o sexto verso do coro é uma espécie de chave. Sempre terminando em palavra que rima com 'roupa', o verso funciona como um breque e 'chama' musicalmente o estribilho. Uma tentação para os improvisadores (mais tarde, nas rodas de samba, a maestria do versejador será medida por esse sexto verso)." No livro "No Tempo de Noel" (1963), Almirante, o primeiro biógrafo do sambista, aponta que o artista não esperava que a música fizesse tanto sucesso e até a vendeu por 180 cruzeiros para cantores do Teatro Municipal. (fonte)