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Linguagem e Mentalidade

2020-03-28

Estamos tão acostumados com a tecnologia da linguagem que podemos precisar de muita atenção para refletir sobre o quão incrível ela é: algo que nos permite formular internamente opiniões e visões de mundo complexas e transmiti-las para outras pessoas que irão decodificar as decisões linguísticas em suas próprias sensações, sentimentos e pensamentos.

O que chamamos de “mensagens subliminares” ou “ler entre as entrelinhas” são exemplos de tentativas de explorar os sentidos da simbologia presente em um texto. Sendo esses sentidos ocultos intencionais ou não, eles evidenciam como a linguagem veicula a representação da mentalidade do interlocutor de forma mais ampla do que o imediatamente observável.

Fundamentais

Sabemos que tecnologia é um mecanismo de potencialização e descobrimos que se não houver cuidado em seu processo evolutivo, ela estará também potencializando vieses e opressão sistêmica. Esse fenômeno é especialmente crítico quando se trata de uma tecnologia de base, que potencializa outras tecnologias.

O caráter fundamental de algumas tecnologias faz com que algumas decisões gerem impactos profundos. A Internet, por exemplo, foi projetada com alguns princípios de descentralização e independência que hoje culminam em políticas como a Neutralidade da Rede[1]. As decisões decorrentes foram determinantes para o avanço da indústria de streaming (outra tecnologia, construída sobre a Internet), empoderando organizações como a Netflix contra a influência dominante dos provedores de telecomunicações.

Quando falamos da nossa linguagem, não é diferente. Ela é uma tecnologia que permeia nossa cultura e também outras tecnologias derivadas, como a legislação. Ao falarmos em alterações linguísticas intencionais (como substituir expressões como “criado-mudo”[2]), temos uma mudança que, apesar de poder parecer pequena, irá reverberar na forma como pensamos e produzimos tecnologia daqui pra frente.

Subliminares

O perigo da linguagem como tecnologia fundamental é justamente ela ser tão natural e automática, frequentemente usada sem itenção clara para cada decisão, e portanto uma tecnologia muito propensa à influência dos nossos vieses mais inconscientes. É de se esperar que um texto expresse mais do que o significado das palavras nele presentes; ele pode trazer dicas quanto à intenção do autor, sua visão de mundo ou até seu estado psíquico.

Um exemplo de posicionamento verbal e intencional é a Uber e seus similares como Uber Eats, iFood, Loggi etc. Observe o seguinte trecho presente em seus termos de serviço:

VOCÊ RECONHECE QUE A UBER NÃO É FORNECEDORA DE BENS, NÃO PRESTA SERVIÇOS DE TRANSPORTE OU LOGÍSTICA, NEM FUNCIONA COMO TRANSPORTADORA, E QUE TODOS ESSES SERVIÇOS DE TRANSPORTE OU LOGÍSTICA SÃO PRESTADOS POR PARCEIROS INDEPENDENTES, QUE NÃO SÃO EMPREGADOS(AS) E NEM REPRESENTANTES DA UBER, NEM DE QUALQUER DE SUAS AFILIADAS.

A decisão de se posicionar como empresa de tecnologia e não de transporte faz com que a Uber escape de várias obrigações trabalhistas ao não reconhecer os motoristas como funcionários. Porém, o que a maioria dos usuários que fossem perguntados na rua diriam sobre do que se trata a empresa Uber? Certamente transporte seria tópico central. Em contrapartida, qual é a linguagem utilizada em propagandas? Usuários elogiando motoristas 5 estrelas, fazendo uso deles como representantes da Uber; Uber como revolução em mobilidade urbana; Uber como alternativa melhor que outros meios de transporte.

Já um exemplo que parece não ser tão intencional e que me é familiar por estar relacionado a softwares de recrutamento, é o vocabulário utilizado por alguns fornecedores de ferramentas para Recursos Humanos:

Recruiterbox: Online applicant tracking tools for the best candidates and hassle-free hiring

Greenhouse: We help you be great at hiring by giving you the right technology […] Attract and hire the best talent

Taleo: Find the talent you need with the world’s most used recruitment platform

Observe como o Taleo se destaca ao protagonizar a empresa como a responsável por encontrar o que ela precisa, enquanto Greenhouse e Recruiterbox colocam no candidato a responsabilidade de ser o melhor. Naturalmente, os clientes das empresas (os usuários da tecnologia) tendem a reproduzir esse linguajar que pressiona os candidatos à competição, indicando que a nível subconsciente a organização tem uma cultura elitista.

Impactantes

O exemplo da Uber é interessante para expor como é possível utilizar da linguagem para disfarçar um problema ético da empresa e manipular a interação com as leis. O exemplo de ferramentas de RH demonstra o que acontece quando os valores da organização vazam através da linguagem e podem ajudar a perpetuar uma mentalidade pouco saudável da força de trabalho em relação à vida profissional.

Apesar de ser comum que as ditas “intenções por trás das palavras” sejam apenas extrapolações forçadas pelo leitor, é também perfeitamente natural observar e questionar escolhas linguísticas. A realidade é que elas não costumam ser tão implícitas (seja intencionalmente ou inadvertidamente) e em geral revelam mentalidades não tão surpreendentes (mesmo que abomináveis).

Analisar a linguagem como tecnologia é importante não somente do ponto de vista de justiça social, mas é um recurso poderoso de transformação cultural. Se tecnologias são usadas por pessoas para moldar o mundo, tecnologias fundamentais como a linguagem dão forma aos moldes.




[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Neutralidade_da_rede

[2] https://propmark.com.br/anunciantes/tokstok-e-mobly-aceitam-pedido-de-etna-para-extinguir-termo-criado-mudo/