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Meu Brasão de Armas

Meu brasão

Simbologia

Os quadrantes inferiores representam histórias supostamente relacionadas aos meus possíveis antepassados, na esquerda uma reinterpretação de um brasão de armas associado à família Villas Bôas e na direita uma reinterpretação dos brasões de armas da família e cidade de Chaves.

Quadrante Villas Bôas

Em fundo vermelho de força militar, o castelo remonta a conquista e soberania, com uma palma sobre sua torre representando a vitória e justiça, enquanto o dragão simboliza bravura e proteção. Resume a lenda de Diogo Villas Bôas que retomou um castelo (após promessa em Domingo de Ramos) a serviço de D. Pedro de Castela (reinado 1350~1369) - curiosamente, isso depois de perder suas terras e bens em Trás-os-Montes por fugir de D. Pedro I de Portugal (reinado 1357~1367) que o queria punir porque “os moradores de suas terras viviam em demasiada liberdade”, eventualmente retornando para seu lar original após a morte do monarca[1].

Existiram outros brasões associados à família Villas Bôas, mas essa história é particularmente memorável e relacionável para mim. Me lembra a minha breve experiência como militar, em que eu também recebi punições por “liderança de baixa autoridade”, e que uma vez também faltei uma punição e fui punido ainda mais fortemente em seguida, mas que no fim das contas ainda terminei com uma boa avaliação no grupo de disciplinas militares. Ri ao me imaginar na pele de um tal Diogo que achou mais apropriado trocar de Rei Pedro e conquistar outro castelo do que disciplinar os próprios súditos.

Quadrante Chaves

Em fundo azul de lealdade e verdade, a ponte sobre águas prateadas referenciando a perenidade e paz, a faixa vermelha com uma torre dourada significando a importância estratégica de sua permanência, enquanto as chaves douradas lembram o poder que emana e sustenta os povos. Resume a resiliência de uma cidade que foi conquistada e reconquistada diversas vezes: dos romanos pelos visigodos no século III/IV, mouros no século VIII, por D. Afonso (de Leão) no século X e mouros de novo ainda no século X, e finalmente por D. Afonso III (de Leão) no século XI. Permanentemente Portuguesa depois de 1160, pelas mãos de um tal Ruy Lopes de Chaves, recompensado com um brasão de armas com timbre de chaves cruzadas[2][3]. Coincidentemente a cidade fica na província de Trás-os-Montes, onde os Villas Bôas tinha terras (que Diogo perdeu).

A região foi promovida a município por Titus Flavius Vespasianus (reinado 69~79), nomeada Aquae Flaviae (Águas Flávias) - nome que evoluiu para Flavias no século V, Chavias no século XII, Chaves no século XIII[4]. A ponte construída sob ordem de Marcus Ulpius Traianus (reinado 98~117) ainda resiste, assim como o gentílico flaviense. Me fascinou que essas duas heranças tenham sobrevivido mais do que os impérios - e a própria língua! - que os mantiveram. Quanto do que construímos hoje esperamos perdurar dois milênios? Para resistir ao tempo não basta funcionalidade duradoura mas também forma atemporal; uma dualidade que eu identifico central no meu senso de estética.

Primeiro Quadrante

O azul, o milho, o moinho e o cachorro são todos adaptações dos símbolos no quadrante Villas Bôas. A intertextualidade é a troca simbólica de estratégia, mantendo os princípios básicos - mesmo fim, meios diferentes. A troca do ramo de palmeira por um maço de trigo (milho?) é a troca da fé na recompensa da devoção por tomar pra mim a responsabilidade completa de semear e colher a própria fortuna. O moinho no lugar do castelo é uma diferença de construção de valor, minha afinidade por produzir em vez de gerenciar. O cão que substitui o dragão expande a proteção do que é meu e dos meus tesouros pela defesa de tudo e todos que me são queridos.

Da história de Diogo Fernandez Villas Bõas, os mesmos fins - vitória, valor, valentia - por outros métodos - trabalho, produção, lealdade.

Segundo Quadrante

Um livro preateado com detalhes em ouro e fecho azulado em fundo vermelho, que generaliza a turbulência do quadrante Chaves. A construção, o poder, a herança; todos os elementos cujo fio comum é a durabilidade e relevância através dos tempos como um veículo histórico. São transformados em livro mas mantendo as cores, representando o meu desejo de imortalidade através do registro, da cultura, do conhecimento. A ponte um dia demolida, o nome um dia abandonado; ainda serão eternas as técnicas de construção, a etimologia das palavras, as consequências das decisões.

Da história da família e cidade de Chaves, os mesmos atributos - resiliência, forma, função - em outros contextos - cultura, abstração, referência.

Timbre

Junto a um elmo com virol que comemora uma combinação das cores das histórias e visões nos quadrantes do escudo, uma balança para equilibrar as naturezas de realização (esquerda) e inércia (direita).

Um sonho: que o melhor de cada princípio se aplique quando apropriado, e que quando conflitem, a única vitória seja através do empate.

Justo Aqui Agora

Uma tradução difícil de um jukugo Japonês aku soku zan, lema do personagem boladíssimo Hajime Saitō do mangá/anime Rurouni Kenshin (Samurai X). Eu lembro vagamente de aprender a expressão já traduzida no Brasil como “Justiça aqui agora”. Depois de consultar algumas pessoas sobre os kanji originais (悪即斬), sinto que foi uma boa tradução, mantendo a cadência original apesar da contração de “terminar o mal” em uma única parte (“Justiça”) e a expansão de “imediatamente” em duas (“aqui, agora”). Ficou melhor que as versões americanas “Slay evil immediately”/”Swift Death to Evil”, que são mais literais e perdem a musicalidade.

Aku Soku Zan (kanji)

Apesar de eu ainda apreciar a versão em kanji, aprendi a gostar dessa versão “Justo Aqui Agora” ainda mais por adequar “Justiça” para 2 sílabas - melhorando a cadência - e por possibiliar uma expansão semântica. Por exemplo, além de oposição ao mal/errado, justo também remete ao que se encaixa, ajustado, adequado. Esse lema então carrega tanto a mensagem de não tolerância ao erro e ao mal, mas também a da necessidade de racionalidade definitiva. Um bônus é a inconsciente lembrança de que “justo” também às vezes é usado como advérbio focalizador (e.g. “Justo você!”).

Esse lema é algo que acredito e gostaria de exercer sempre, mas ainda me falta sabedoria. De vez em quando peco por excesso - não aceitando progredir uma discussão por me apegar a detalhes preciosistas - e de vez em quando peco por omissão - não vocalizar dissatisfação com uma opinião tóxica por aversão a conflitos improdutivos. Mas disso também faz parte uma definição expandida desse lema: justiça pelo que importa, onde faz sentido, quando possível. Como observar as nuances de cada caso é uma habilidade que espero evoluir ao longo da vida.

Especificação

Na gramática formal de Karl Wilcox[5], o brasão completo é descrito por:

quarterly:
  1st azure
    a bundle of corn vert;
    a windmill argent;
    a talbot sable sejant,
      much smaller, much lower;
  2nd gules
    a book closed leaved argent clasped azure and garnished or;
  3rd gules
    a palm leaf vert in chief fesswise reversed,
      bigger much to the sinister a little to the sinister;
    a castle triple towered argent masoned sable,
      smaller higher;
    a wyvern rampant argent;
  4th
    quarterly:
      i and ii azure;
      iii barry wavy azure and argent;
      iv barry wavy azure and argent;;
      over all quarters
    an endorse gules
    a tower triple towered or in base,
      very much smaller;
    a pair of keys in chief or,
      lower;
    a bridge of three arches argent masoned sable,
      very much bigger much bigger much bigger;;
achievement
  with a royal helmet argent
  torse azure and gules
  crest a scale or much bigger much lower
  mantling of ribbons
  motto "JUSTO AQUI AGORA"

Contexto

Descobri o mundo da heráldica por acidente ao pesquisar meus sobrenomes. Uma grata surpresa é de que existe uma gramática[6] bem descrita. É como se fosse aprender um novo dialeto, misturado com aprender sobre arte com pitadas de curiosidades históricas.

Um brasão Villas Bôas

Brasão da família Villas Bôas

De acordo com o Nobiliário das Famílias de Portugal (Tomo XXVIII, páginas 238~239)[1], o brasão da família de Diogo Fernandez Villas Bôas é descrito como:

Hum escudo esquartellado, o primeiro de vermelho, hum Castello de prata com tres Torres com portas lavradas de preto, sahindo da Torre do meyo hum ramo de Palma verde, e ao segundo de Azul hum Drago de prata Volante com o rabo retrosido, e asim os contrarios. Timbre meio Drago das Armas voando com hum ramo de Palma na boca.

Ainda existe evidência histórica (no Solar dos Vilas Boas em Airó, Barcelos, Portugal) que concorda com essa descrição:

Brasão em pedra #3

A descrição presente no coadb.com é bastante semelhante, com pequenas diferenças como as portas pretas (abertas?) mais o rabo retorcido e a direção da cabeça do dragão:

Suposto brasão Villas Bôas

Écartelé aux 1 et 4 de gueules à un château d’argent sommé de trois tourelles du même celle du milieu portant une palme de sinople aux 2 et 3 d’azur à un dragon volant regardant d’argent langué de gueules

No entanto, o nobiliário menciona que esse foi o brasão de armas condedido por D. Pedro I de Castela a Diogo depois dele perder o original, e que em Portugual os Villas Bôas tinham o brasão anterior conferido por D. Sancho II aos irmãos florentinos Villas Bôas que deram início à família:

Armas de q uzarão os primeiros Villas boas q erão hum Castello em memoria do q tomarão junto a Villa, e junto delle dois homens Armados em pé em memoria dos dois Irmaons cujas Armas largou Diogo Fz de Villas boas

E depois o nobiliário relata também que outros Villas Bôas já tinham adotado outros brasões de armas:

Diz a Corografia Portugueza Tom 1. fl. 318 q os descendentes de Pedro de Vilas boas q athe hoje não conhecemos, uzão de outras Armas, q são em Campo Verde hum Drago preto volamte, com a cauda levantada, e lingua preta;

Então apesar de um ou outro Villas Bôas declarar que o brasão de Diogo Fernandez é o brasão de toda a família, parece que esse brasão não foi de fato o primeiro e original, tampouco se aplicava a todos os Villas Bôas posteriores. Apesar disso, é de fato a parte da genealogia Villas Bôas mais bem documentada (são 39 páginas de nobiliário).

Um brasão Chaves

Sobre a história e o brasão da família Chaves é um pouco mais difícil de encontrar informações, um dos motivos sendo a confusão com o ainda existente município de Chaves em Portugal. Parece ter sido um sobrenome toponímico (referenciando a origem geográfica do indivíduo), o que explicaria ele ser tão comum e não haver uma história unificada.

Considerando que a etimologia do nome da cidade de Chaves tem mais a ver com a dinastia romana Flavius e que em latim referencia uma cor de cabelo amarelo-dourado-marrom[7], utilizar objetos chaves (mesmo que na cor certa) é um acidente linguístico. Talvez uma brincadeira em jogo de palavras que eu faria, mas não esperaria que a própria cidade fizesse:

Suposto brasão Chaves

Tudo de azul, ponte de três arcos de prata, movente dos flancos, lavrada de negro, saiante de um contra - chefe ondado de prata e azul; em chefe, escudo de prata carregado de cinco escudetes de azul postos em cruz, carregado cada um de cinco besantes de prata e com uma bordadura de vermelho carregada de sete castelos de ouro, acompanhada de duas chaves de ouro, estando a da dextra volvida em cortesia.

Brasão em pedra #1

Apesar de haver bastante confiabilidade nas informações históricas da Cidade de Chaves, não há certeza de que o sobrenome Chaves seja em sua referência. Há alguma confiança de sua origem ser da região de Portugual e Espanha, onde ele é muito comum. O Nobiliário das Famílias de Portugal (Tomo XII, páginas 92~94) diz:

Os [Chaves] de Castella tem seu Sollar em Caceres, e Troxilho, descendem de hum Cavalheiro q tendo Troxilho com sua Fortaleza em Humenagem a ElRey, lhe poz cerco hum Rey Mouro vezinho, e elle vendo-se apertado mandou dizer ao Rey Mouro se queria entregar, e p.a isso lhe queria fallar só p.a q os seus não desconfiassem, e saindo da Fortaleza com as Chaves, despedindo-se da sua m.er e f.a lhe recomendou q se elle morresse fizessem hua fogueira de seus moveis e nella se queimassem. Sahio levando as Chaves da fortaleza e deixou os q o acompanhavão emboscados; o Rey Mouro vendo vinha só se chegou a elle, e nesta occasião sahirão os embuscados, e o Rey Mouro fugio logo, e todo o seu exercito supondo era grande o puder q vinha sobre elles, e assim se livrou, e chegando a Fortaleza achou sua m.er e f.as com hua fogueira e os seus trastes ao pe; foi o Cavalheiro entregar as Chaves a ElRey q estava na Andalozia, e o Rey lhe m.ce da Villa e Castello e lhe cazou as f.as com homens Fidalgos e lhe deo por Armas cinco chaves de prata em um campo Vermelho, e timbre hua chave das Armas, mas deste não vem os Chaves de q aqui tratamos.

Resumindo: um cavaleiro com castelo cercado de inimigos, depois de trancar mulher e filhas na fortaleza e instruir seu suicídio caso ele não voltasse, blefou que iria se entregar, escondeu tropas pra uma emboscada, fingiu um ataque e assim manteve o próprio castelo. Contou pro Rei, que deu várias recompensas dentre elas o sobrenome e o brasão, MAS NÃO É DESSA FAMÍLIA QUE ESTAREMOS FALANDO NAS PRÓXIMAS PÁGINAS.

Em seguida, o nobiliário registra que o patriarca da família Chaves sendo documentada é Ruy Lopes (de Chaves), que ganhou o nome por conquistar a Cidade de Chaves dos mouros para D. Afonso Henriques em 1160 - última vez que a cidade troca de reino! Apesar disso, o nobiliário não escreve as armas da família até chegada de Alvaro Gonzalez de Chaves (de relação incerta a Ruy):

Em Campo de Prata cinco chaves de ouro, em Aspa, com hum trosal vermelho atadas, timbre duas Chaves em aspa atadas com o mesmo trosal.

No coadb.com, o brasão também é descrito com 5 chaves “em aspa” (formato de X), apesar de uma disposição de cores diferente:

Suposto brasão Chaves

D’or à cinq clés d’azur en pals 2 1 et 2 les pannetons en haut et à senestre à la bordure de gueules ch de huit flanchis d’or

Então como era de se esperar, não tem como garantir que um ou outro brasão está relacionado com meus antepassados. Ainda assim, as histórias interligadas da cidade e de uma família já valem por exercitar o imaginário.




[1] http://purl.pt/12151/3/hg-40115-v/hg-40115-v_item3/index.html#/494

[2] http://purl.pt/12151/3/hg-40107-v/hg-40107-v_item3/index.html#/310

[3] https://www.chaves.pt/pages/143

[4] https://monumental.chaves.pt/pages/127

[5] https://github.com/drawshield/Blazon-Parser

[6] http://heraldry.sca.org/armory/bruce.html

[7] https://en.wiktionary.org/wiki/flavus